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terça-feira, 1 de março de 2011

Sedução


Vivia a vida louca - noitadas, bebedeiras, sexo e poder. Subiu na vida à custa da sua capacidade de sedução. Não usava o típico engate, mas um "fazer-se difícil" irresistível. Provocava o seu chefe; deixava-o louco; fazia-o esperar; levava-o ao desespero; provocava-o sempre mais e mais sem lhe dar nada em troca; fazia-o suplicar por um momento de atenção; dizia-se ocupada quando tinha todo o tempo do mundo.
Após uma imploração descomedida, promessas e mais promessas, conseguiu levá-la até ao seu hotel. Com os cabelos ruivos, brilhantes e encaracolados, os olhos verdes encantadores, os lábios rubros tentadores, a pele morena e macia, o corpo escultural e o vestido verde-mar que lhe torneava as curvas acentuadas, descia calmamente as escadas de passadeira vermelha que findavam no salão de jantar. Ele estava quase adormecido com tamanha beleza diante de si. Balbuciava algumas palavras de deleitação e admirava-a insistentemente com os olhos que faziam um esforço para não olhar para o enorme decote que lhe desenhavam o peito redondo.
Com copos de champanhe, ostras, lagosta e caviar, ele deixou-se embebedar naquela atmosfera que transpirava sedução.
- Subimos? - tartemudeou.
Com olhar ríspido e distante declinou a proposta e saiu do salão, deixando um rasto de luxúria atrás de si.
Os dias seguiam-se e ele ia desesperando cada vez mais, apercebendo-se que aquela mulher tinha algo de misterioso à sua volta, mistério esse que actuava como uma droga que o viciava e fazia querer mais. Roubou-lhe um beijo num dos dias em que a chamou ao seu gabinete. A senhora advogada levava umas calças justas pretas de sarja e uma blusa semi-aberta que a delineava. Os saltos altos começavam a ouvir-se e ele sentia-a mais perto. Assim que pode, agarrou-se a ela num beijo arrebatador, cheio de gula e desejo que foi totalmente correspondido. Depois de terminado, ela olhou-o com olhar provocante e apenas disse:
- Precisa de mais alguma coisa?
Não tendo coragem de responder limitou-se a abanar a cabeça, como se não acreditasse que aquela mulher o tivesse deixado num estado tão avassalador.
Nesse mesmo dia à noite, quando regressava para casa da mulher e dos filhos, o lar doce lar onde encontrava o conforto e o amor, notou que se sentia estranhamente vazio - não dormia com a mulher com quem casara aos tenros 25 anos há mais de um mês e havia-se esquecido totalmente do quão importantes eram os 3 filhos na sua vida. Reflectiu. Parou. Pensou no o circundava, e notou que todas as noites perdidas a suspirar por uma rameirazinha que subiu na vida à custa do seu poder de sedução, que enfeitiçava os homens e ele não seria o primeiro nem o último a sentir tal encantamento e vontade de posse a nada o levou.
Parece que muitas vezes precisamos da adrenalina de um momento, mas nada substitui o amor verdadeiro e inocente, despojado de sofreguidão e assente em solidez e conforto.
De que vale uma vida cheia de aventura se acabamos por cair no abismo da solidão? De que vale noites de delírio se acabamos por querer um dia em que possamos dormir profundamente? De que vale a loucura se acabamos por querer assentar? De que vale o sexo em vez de amor?

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

[Excerto]

«- A maioria das coisas no universo não são eternas, mas acredita que a minha promessa será. Já nos conhecemos há tempo suficiente para saberes como eu sou, te aperceberes dos meus problemas e compreenderes as minhas dúvidas. Não te vou pedir em casamento porque como ambos sabemos não temos tempo para isso, mas podes crer que todos os dias da minha vida vou pensar em ti, festejar o teu dia de anos, oferecer-te uma prenda no dia de São Valentim, mostrar-te a nossa filha, e por fim, despedir-me de ti todas as noites – reparou que os seus olhos brilhavam como estrelas, o efeito das lágrimas com os raios de sol transpareciam o seu amor – amo-te hoje, amanhã e sempre.
Sarah ficou tão extasiada com tais palavras que não conseguiu mostrar emotividade maior do que chorar. Puxou-o para se levantar e abraçaram-se envolvidos num só, parecia que naquele momento se tinham casado. Havia promessa maior que o amor eterno? Não seria um simples papel assinado por ambos que os iria tornar mais unidos, já aquela promessa feita por ele uniu-os de tal forma que se sentiam realmente um só

In Na Sombra do Passado, Joana Filipa Barata

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Love or suicide


Os dias eram uma constante rotina, mas ela gostava que fossem assim. Tinha o emprego com que sempre sonhara, uma vida cheia de trabalho e preocupações, pouco era o tempo que lhe restava para divagações. Era totalmente independente; vivia sozinha num apartamento no centro da grande Lisboa. O despertador tocava todos os dias às sete e meia da manhã. Corria à volta do quarteirão durante meia hora/vinte minutos. Subia, tomava um duche, o pequeno almoço, arranjava-se e dirigia-se pacificamente para o trabalho. Os amigos contavam-se pelos dedos. Gostava de paz e sossego e de sair esporadicamente com aqueles que gostava realmente de estar. Não amava ninguém desde os ingénuos 17 anos, altura em que teve um grande desgosto amoroso - de um momento para o outro, o namorado que tinha já há dois anos e meio, deixou-a por se ter enamorado por uma tipa uns anos mais velha. Desde esse dia, Maria jurou a si mesma que não se voltaria a apaixonar. De facto até aos 27 anos conseguiu cumprir a promessa. Teve um flirt aqui e ali, coisas de uma noite ou no máximo uma semana. Dedicou-se inteiramente à vida profissional e deixou de lado aquilo que mais sofrimento lhe causou, o amor...
Numa das corridas matinais, esbarrou contra um rapaz muito bem parecido, tropeçando no seu pé e apoiando-se no ombro dele. Moreno, latino, olhos verdes, lábios carnudos e um sorriso encantador, foi o que lhe despertou à atenção. Desculpou-se dizendo que ia distraída e que não o vira, mas ele não esperou que ela acabasse as desculpas para a convidar para um café. Usou a típica desculpa do "é o mínimo que posso fazer por si". O café, depois o passeio, depois o jantar, depois a cama. Ao fim de uma semana estavam os dois embrulhados nos lençóis de seda do apartamento da jovem, partilhando múltiplas emoções e sentimentos. Quando acabaram de fazer amor, ela disse-lhe enternecida "tu és especial". Ele não respondeu e ela interpretou o silêncio como um assentimento à declaração e uma reciprocidade de sentimentos.
As semanas transformaram-se em meses e os meses em anos. A mágoa de há muito tempo tinha sido apagada. Ele não era expressivo nem muito emotivo, mas tinha o dom de ter a palavra certa no momento certo. Já namoravam há sensivelmente dois anos, quando ela lhe falou em casamento. Ele não deu abertura à conversa e, desde esse dia, não voltou a aparecer-lhe.
Anos mais tarde veio a saber que as viagens de negócios eram um pretexto para ir ter com a noiva que residia em Itália.
O mundo voltou a desabar. Pela segunda vez consecutiva sentiu-se trocada, usada, manipulada, enganada e traída. Maria entregou-se ao inferno da rejeição, e desde os 29 anos de idade, não voltou a provar o sabor agridoce do amor. Foi encontrada morta no sofá vários anos depois, com um um bilhete tingido de sangue que dizia «Não cabe ao coração curar as maselas feitas por terceiros, mas sim à consciência. Eu não tive coragem de arrancar a impermeabilidade que o meu ser formou à volta da paixão. E ao fim de tantos anos, apesar de não saber viver com amor, já não consigo viver sem ele.».

Todos aguentamos uma grande desilusão uma vez, mas nem todos superam duas e três.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Ela e ele


Tinha aquele ar inabalável e ríspido, mas dentro de si, o seu coração palpitava como todos os outros. Apesar de parecer impassível, a verdade é que apenas tinha menos à vontade para mostrar o que sentia. Oferecia palavras genuínas, sem grande significado, mas limpas, serenas, com classe, com um ténue sabor a amor. Seria isso? Nunca lho disse cara a cara, olhos nos olhos, e talvez por isso ela duvidasse tanto dos seus sentimentos. Talvez por isso, ela vivesse num impasse que a certa altura se tornou insustentável. As dúvidas iam-se dissipando e a realidade ia-se sobrepondo à vontade. Os desejos pareciam não passar disso, de leves desejos... e a dor, essa começava a ganhar uma força demasiado violenta para ser sentida. Colocou de parte. Pensou que não era uma opção viável, que tudo não passavam de ilusões, de simples quimeras que suportaram durante tanto tempo a vontade de continuar.
Modesta e humilde, como só ela, disse-lhe que não esperava aquela revelação da sua parte e desculpou-se por ter sido tão cega. Não quis entrar em discussões, proporcionou-lhe um sorriso e um toque na mão. Esse mesmo toque fê-la acordar. Como se o que tomou como opção excluída voltasse à corrida, à corrida não, à certeza. Pois não tardou que os seus olhos sinceros tocassem os dela com um brilho reluzente. Ele fechou-os lentamente. Ela sabia o que ele ia fazer. Não se chegou para trás. Não que a sua mente quisesse aquele beijo, mas porque o seu corpo a prendeu ao chão. Os lábios fundiram-se e a paixão enalteceu-se. Depois disto? Ora depois disto, como todas as lindas histórias de amor, acabou.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Menina-mulher


Tinha um ar austero. Não dava confiança com facilidade, mas gostava de brincar com os mais chegados. Era uma rapariga simples, com hábitos simples e objectivos também eles simples. Mulher de rotinas, sim, já era mulher. Ia para a escola de pasta debaixo do braço e estudava afincadamente para conseguir o que queria. O mal dela era sonhar. Sonhava muito, sonhava demais. Gostava de se apaixonar. Gostava e assumia-o. Mas nunca encontrava o 'tal' e quando o encontrou não se apercebeu. Conheceram-se, mas não se apaixonaram logo, levou o seu tempo. Quer dizer, ele apaixonou-se primeiro, mas ela não se quis deixar logo levar e ficou na retaguarda. Levou tanto tempo quanto o necessário para ela se dar por completo. Ficavam bem juntos, ficavam muito bem juntos, aliás. Eles entendiam-se às mil maravilhas; discutiam naturalmente, mas os sorrisos, os beijos trocados, os abraços envolventes, as carícias partilhadas, tudo compensava alguma ponta de ciúme ou insegurança que pudesse existir na relação. Eram felizes e apaixonados. Mas um dia tudo acabou. E o "para sempre" ficou muito à quem do esperado. Ela nunca mais sorriu da mesma forma, nunca mais teve aquele brilho no olhar. Quer dizer, os olhos da rapariga voltaram a brilhar, mas não com a mesma intensidade. Houve noites em que ela encheu a almofada de água salgada. Houve vezes que precisou de olhar a Lua para se acalmar. Houve dias em que não pensava em mais nada, senão nele. Houve momentos em que não sabia como o tirar da cabeça. O facto é que tinha chegado ao fim, e ambos concordaram com essa realidade. Porém, assume-se que no fim tudo acaba bem, portanto se não está bem, é porque ainda não chegou o fim.
Naqueles dias em que a mágoa pesa mais que a vontade de viver, é a esta frasezinha que a menina-mulher se agarra. E digo-vos, não se tem saído mal.