domingo, 6 de novembro de 2011

Será que se perdoa na medida em que se ama?


É fácil dizer que sim, é fácil afirmar convictamente que faz todo o sentido perdoarmos os erros de quem amamos. Mas na prática... Será assim tão fácil? Será assim tão linear dizer que perdoamos tudo porque amamos determinada pessoa? Não estaremos a deixar de nos amar quando perdoamos algo que consideramos imperdoável? Não estaremos a abdicar de uma parte do que somos e daquilo em que acreditamos quando o fazemos? Eu não sou uma pessoa rancorosa, simplesmente não sou. Perdoo com facilidade e ponho as coisas piores para trás das costas num piscar de olhos. Num dia posso dizer as coisas mais atrozes a alguém, como forma de descarregar o peso que tenho dentro de mim, mas no dia seguinte tudo passou e let's move on. Contudo, há coisas que me ferem de tamanha forma que eu simplesmente não consigo esquecer. E oxalá conseguisse. Eu também fico devastada por não conseguir perdoar, mas perdoar seria abdicar de uma parte daquilo que sou, e desfragmentada, não sei viver. Às vezes mais vale acarretar com o desalento de perder alguém do que de me perder a mim própria. Há perdões difíceis de conceder. Há imagens que não saem da nossa cabeça. Há frases que nos atormentam a cada dia que passa. Há gestos que não nos deixam em paz. Perdoar seria permitir que as minhas convicções, aquilo em que mais acredito, fossem meras quimeras que invento para entreter o dia-a-dia. E não é isso que elas são. Os meus ideais, a minha forma de viver e de encarar a minha existência rege-se por padrões que, para mim, dão sentido às coisas que vou tentando fazer.
Será que realmente se perdoa na medida em que se ama? Talvez, se eu não amasse quem sou em primeiro lugar.

2 comentários:

l'anonyme disse...

Coloquei-me exactamente a mesma questão há um tempo.
Cheguei à conclusão que o amor é, puramente, algo que cega. Sejam os primeiros amores, os quartos ou os quintos, a verdade é que, se pensamos que amamos alguém, deixamos de raciocinar. Mas penso que nunca, mas nunca irei perder a noção de quem sou e do que sou digna.

Pessoalmente, concordo plenamente contigo. Independentemente do meu amor pela outra pessoa, há coisas que, ao perdoar, me estaria a humilhar, a rebaixar, a diminuir. Acredito que, para amares alguém no mais pleno estado, é preciso amares-te primeiro. Conseguires sentir-te inteira por ti própria. Porque não existem caras-metades, existem pessoas que, umas com as outras, criam, renovam, vivem.

Se eu seria capaz de perder noção de mim por outra pessoa? Não. Eu sou, sobretudo, a minha melhor companhia. Sem mim não sou nada e, não querendo transparecer narcisismo, nada quero nem tenho para dar a quem faz algo que me magoe tanto que tenha de me ferir ao perdoar.

Adorei o texto! Escreves tão bem *.*

Joana Filipa disse...

Exacto! É exactamente essa a minha perspectiva. Foi o que tentei mostrar neste texto :)
Muitíssimo obrigada. Beijinho**